“É impossível passar os olhos por qualquer jornal, de qualquer dia, mês ou ano, sem descobrir em todas as linhas os traços mais pavorosos da perversidade humana […] Qualquer jornal, da primeira à última linha, nada mais é do que um tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, linchamentos, torturas, as façanhas malignas dos príncipes, das nações, de indivíduos particulares; uma orgia de atrocidade universal. E é com este aperitivo abominável que o homem civilizado rega o seu repasto matinal”. (Baudelaire, 1860).

 

Se Baudelaire estava certo em 1860, o que dizer de hoje? Atrocidades cobrem as páginas de jornais e revistas e, nós, meros leitores passamos, muitas vezes, quase insensíveis diante da dor dos outros. Somos bombardeados todos os dias por imagens aterrorizantes de guerras e conflitos pelo mundo. No livro Diante da dor dos outros (2003),  a ensaísta norte-americana, Susan Sontag traça a evolução desse tipo de iconografia, analisando  o nível de aceitação dos horrores das imagens em relação com o subjetivismo de cada um.

O livro retoma pinturas de Goya, imagens a Guerra Civil Americana, da I Guerra Mundial, da Guerra Civil Espanhola, dos campos de concentração nazistas, da Guerra do Vietnã, até chegar às imagens do dia 11 de setembro.  Diante da dor dos outros analisa as dores da humanidade a partir da apreciação banalizada de cenas de sofrimento alheio. O livro apresenta um diagnóstico não das imagens, mas do efeito que elas causam. Discurso sempre pertinente, sejamos francos.

Anúncios